Eterno companheiro
Naquela tarde sentada no piso do
banheiro, com a água escorrendo sobre os meus ombros, acontecia pela decima vez
um choro. Eu Rute não suportava mais, sempre me submetia a não participar
inteiramente da vida da pessoa que amava. Por falta de querer nunca era, mas
como não poderia ficar ali naquele banheiro o resto de minha vida, levantei,
desliguei o chuveiro e me enxuguei.
Anoitecendo lá pras sete ia
depressa a caminho do estúdio musical o revi. Fazia tempo que não o via desde o
ano passado, aconteceram tantas coisas, mas nenhuma delas me afogava a dor de
não tê-lo com gostaria. Como todos nossos encontros esse não seria diferente
nos congelamos por alguns olhares e dissemos meros “oi”. Novamente à vontade
chorar me acarretou os olhos, fui forte, não me deixei abater. Porém, mais uma
vez a noticia desagradável torna me ferir.
Minutos depois de ter casualmente
encontrado Raphael encontrei Valter seu amigo. Ele foi o belo portador da nova noticia,
era ele que me informava coisas sobre Raphael. Qual era a noticia dessa vez?
HÁ, a de sempre, de novo Raphael estava namorando. Sempre achei incrível como
as namoradas dele eram tão descartáveis.
Todos os anos que passamos juntos
“amigavelmente” serviram mais do que os três ou dez meses vividos com cada uma
delas, só que isso jamais passou pela cabeça de Raphael, uma hipótese de
namorar comigo. Seus amigos e os meus diziam que isso era orgulho ridículo,
pois nos conhecemos a anos, segundo diz nossos pais. Isso para ele era como o
fim do mundo, porque eu não era horrenda como talvez dê a entender, ele
simplesmente preferia milhões de garotas que tivesse conhecido no sábado
passado do que a mim.
Por fim, apenas me despedi de
Valter e segui. Imaginei que os dois iriam se encontrar e quis ser breve para
não o ve-lo de novo. Cheguei ao estúdio e estavam lá minha querida Dani, meu
querido Mellyk e minha princesa Gabi. Iriamos fazer um ensaio acústico, pois
abriríamos um show em Itaquera. Ansiedade a flor da pele, frios incessáveis na
barriga e um sentimento chato no peito.
Na salinha todos perceberam minha
tristeza, mas sabiam que haveria uma cura pra tudo isso. Deram-me papel e lápis
e disseram: “- Componha!”. Apenas ri, mas Gabi insistiu dizendo:
“_ Estamos falando sério, componha!
Isso vai te aliviar. E pense bem, se ficar boa podemos ate tocar no Itaquera.”.
Não respondi por que não tinha
palavras, me deixaram sozinha no estúdio e então comecei. Um papel, lixo. Outro
papel, amassado. Daí começou, chorei. Não dava mais eu não conseguia achar
letra, nem se quer lágrimas. Demorou muito tempo e as primeiras palavras foram
saindo, com notas.
Já era tarde da noite, fui embora e
a caminho de casa vi do outro lado da calçada Raphael e Valter. Acelerei o
passo e consegui sumir. Pela manhã acordei com minha mãe gritando: “-
Levanta... Tem um garoto desesperado no portão dizendo que quer falar com
você”. Comecei a rir de raiva, pensei “-Minha mãe deve estar delirando. Onde
que um garoto iria estar na porta da minha casa me chamando e ainda
desesperadamente!”. Levantei só para ter
certeza de que minha mãe estava sonhando, mas não estava. Com a água do tanque
lavei meu rosto e desci as escadas de pijama.
Desci tropicando os degraus, abri o
portão e vi Valter chorando. Eu perguntava o que aconteceu e ele não conseguia
responder, mas logo reparei que ele estava com a mesma roupa de ontem à noite
quando o vi com Raphael. Daí já me desesperei, dei umas sacudidas em Valter pra
ele cair em si e me dizer o que houve e ele disse ainda chorando:
“_ Rute pelo amor de Deus. Me
ajuda! Raphael tá mal.”.
“_ Valter, como assim mal? Se
acalma e responde.”. Naquele momento eu estava em pranto, Valter se ajoelhou no
chão e não parava de chorar. O abracei e perguntei sem muita voz:
“_ O que aconteceu com Raphael
Valter? Por favor, responde...”.
“_ Rute, foi ontem. Nos estávamos
voltando pra casa quando um louco, maluco bêbado dançou na pista com o carro.
Era pra ser eu Rute, mas não, ele me empurrou e foi nele. Eu só cai no escadão
que tem ali em cima, mais ele se feriu demais. Foi prensado na parede, alguns
vidros dos espelhos furaram sua barriga e o impacto foi forte demais na cabeça,
o cara do carro morreu e ele está a beira.”.
Pronto, a fonte de lágrimas se
secou, encostei-me a parece da rua e enquanto as pessoas passavam minhas
reações iam com elas. Minha mãe desceu e me fez levantar, levamos Valter para
sala e demos um calmante a ele, até que ele dormiu. Me troquei e liguei para
Nenê irmão de Raphael e peguei o endereço do hospital.
Chegando lá o pai e a mãe de
Raphael me abraçaram e me contaram que ele estava em coma e tinha acabado de
passar por uma cirurgia na coluna. Provavelmente quando acordasse poderia não
se lembrar de alguém, andaria de cadeira de rodas por tempo indeterminado e
talvez pudesse não ver, pois os estilhaços vidros entraram nos olhos.
Não conseguia acreditar em nada
daquilo, reagi de maneira anestésica e caminhei para o final do corredor dos
quartos e daí parei de frente a uma sala onde estavam um senhor e uma senhora,
ele a ajudava a levantar e sorria. Comecei a orar:
“_ Deus, já te pedi tanta coisa,
muitas delas vãs. Mas agora não. Nem saber como pedir eu seu. Preciso do teu
milagre, do teu querer e do teu agir. Sabe que naquele quarto está o homem que
eu amo, e que sabe-se lá se será o meu eterno companheiro, mas peço que mesmo
que não seja pra estar comigo, que viva, que ele seja a prova do seu poder, e
que ele mesmo não lembrando de mim, lembre que tu meu Deus é quem o salvou.”.
Passamos dois dias no hospital e
acredite quem quiser ela nem apareceu. Ela a namorada. Valter foi a casa dela e
ela disse que estaria rezando por ele. Em fim, pouco me importava ela lá ou
não, queria mesmo é que Raphael acordasse e ficasse bem.
Eu e os familiares de Raphael
fazíamos plantão no hospital, quando no sétimo dia veio o médico dando risada e
perguntando:
“_ Quem são os familiares de
Raphael?”. Só se ouvia na sala de espera “eu...eu..”. Praticamente todo mundo,
mas como eu não era da família nem nada, fiquei quieta, mas prestando atenção.
“_ Somos nós Doutor, o que
aconteceu?”. Perguntou a mão de Raphael ao Doutor.
“_Senhora, seu filho acordou!”.
Simplesmente a alegria voltou, os risos tomaram conta do proibido barulho de
hospital, mas ainda sim veio a pergunta feita pelo pai de Raphael:
“_ Doutor, podemos ve-lo? Falar com
ele?”. Procurando entre as pessoas o Doutor diz:
“_ Sim, podem. Mas ele pediu para
ver Rute. Quem é?”. Eu fiquei perdida. Como assim eu? Então foi quando a mãe
dele olho para mim e disse:
“_ Sim princesa, é você mesmo, o anjinho
de Raphael. Vai falar com meu filho e depois nos entramos.
Meio receosa acompanhei uma
enfermeira até uma sala para me trocar e fui à sala. Quando entrei Raphael olho
para mim, sorriu e disse:
“_ Por que será que eu sabia que
você estava aqui?”. Uma lágrima escorreu dos olhos de Raphael e eu sorri.
Sentei em uma cadeirinha do lado da maca, peguei em sua mão e ele perguntou:
“_ Por que você veio? Me ama
mesmo?”. E eu respondi:
“_ Está todo acabado e ainda fica
fazendo gracinha. Bobo, sim. Você sabe que te amo.
Ele apertava minha mão toda vez que
sentia dor, tentava se fazer de forte, mas eu vi que ele não estava suportando.
Me despedi dele com um beijinho no nariz para seus pais poderem entrar e quando
os chamei, a enfermeira entrou aplicou um remédio na veia para passar as dores.
Seus pais entraram, conversaram um pouquinho e ele adormeceu. O pai de Raphael
pediu pra que eu fosse pra casa descansar e depois eu voltava.
Quando cheguei em casa peguei meu
violão e terminei a música. Liguei para Gabi e por telefone mesmo mostrei a
ela. De imediato ela ligou pra nossa banda e marcou um ensaio para de tarde.
Ensaiamos e a música ficou linda, todos gostaram e ficaram felizes, pois
iriamos toca-la no Itaquera, mas minha alegria parecia que gostava de desaparecer.
Dessa vez o pai de Raphael me ligou e disse que ele havia voltado ao como,
porque descobriram um coágulo de sangue na cabeça ao ter apresentado febre
altíssima e convulsionado.
Voltei ao hospital, fiquei por
horas e horas sem nenhuma resposta dos médicos. Eu e Valter fomos até a porta
da UTI para ver se o Doutor falava algo e o encontramos passando relatório do
óbito para enfermeira. Naquele momento não sabia onde achar minha pulsação, o
Doutor saiu da sala e fomos logo o interrogando:
“_ Doutor, e Raphael?”. O Doutor
meio sem jeito disse:
“_ Perdoe-me a demora, mas ele
está... Instável! Conseguimos tirar o coágulo e ele está se recuperando, pois
na sala de cirurgia ele teve dois enfartes.
Ali veio o alivio, pensávamos que
aquele atestado era do Raphael. Graças a Deus não era e fomos dar a noticia
pros outros. Depois de toda essa angústia
tive que passar uns dias sem ir até o hospital, não sabia como Raphael
estava, pois o dia do show estava se aproximando.
O dia do show em fim chegou, meu
corpo estava no Itaquera, mas meu coração e pensamento estavam lá no hospital.
Só que eu tinha que dar o meu melhor aquele show. Todos os outros cantores se
apresentaram e por volta das dez horas era subimos no palco. Estava na hora da
última música então eu disse:
“_ Essa será nossa última música
galerinha. Antes de canta-la eu gostaria de dizer que essa música ela é muito
especial para mim, creio que pra toda nossa banda, pois eles viveram comigo
tudo que a canção diz. Gostaria de dedica-la a alguém muito especial, que nesse
momento eu não sei como está, mas que quando eu fiz essa canção eu senti que um
amor estava transparecendo e que Deus estava fazendo um milagre lindo. Espero
que vocês gostem!”.
A música começou a tocar, mas
acontecia nesse momento algo estranho. Dentre toda multidão as pessoas estavam
abrindo um corredor enorme e de lá do fundo eu avistei uma pessoas passando
nesse meio. Achei que fosse alguém que estava passando mal e estavam tirando de
lá para atendê-lo. Daí comecei a cantar:
“_ Nosso amor é... Um milagre de Deus
Tanto que
chorei, mas aconteceu...
Perguntei
pra Deus... Será que não vai mais ter um fim, essa dor dentro de mim?.
E ele me
respondeu, espera e veja como aconteceu...”.
Nessa parte da música sempre me
emociono, mas dessa vez foi pior. Aquela pessoa se aproximava e a reconheci,
era Raphael. Ele andava devagar porque ainda se recuperava, mas ele estava
muito bem. Eu ajoelhei no palco em pranto como Valter aquele dia, daquela
multidão de pessoas todos gritando e nenhum conseguiu ficar sem chorar comigo.
Minha amiga Gabi e a Dani as vocais, desceram do banquinho e correram pra me
abraçar no centro do palco.
O organizador do evento foi até o
corredor e entregou um microfone para Raphael e ele disse:
“_ Rute. Acho que você me esperou
tanto tempo, não sei coo teve paciência pra me suportar. Mas vim aqui para te
agradecer. Você tem honrado seu nome, bela companheira. E por isso quero pedir
que esteja ao meu lado, cada minuto que puder. Por que Deus através de você me
deu a chance de mais um milagre, realmente ali naquele hospital só me passava
poder te ver mais uma vez. Não entendia que você era meu braço direito em tudo
e não queria ver que em você encontrei o verdadeiro sentido da palavra “amor”.
Rute, você quer namorar comigo?”.
Desci daquele palco tão rápido que
nem eu mesma acreditei, o abracei e disse:
“_ Nossa... como isso demorou. Sim,
sim, sim! Aceito!”.
Todo mundo começou a gritar. “-
Beija, beija, beija.”. Daí fizemos a vontade deles, confesso, a minha ainda
mais. Me esqueci por completo do show e então Gabi falou do palco:
“_ Agora que a pessoa especial se
encontra, podemos continuar a música.”. O conduzi até a parte vip e continuamos
com nossa última canção.
Esse dia foi o melhor em toda minha
vida, claro que logo após vem o dia do meu casamento com Raphael, o nascimento
de nossos dois filhos entre outros que passamos juntos. Hoje eu e minha banda
vamos novamente subir ao palco e relembrar algumas canções de nossos álbuns
para milhões de pessoas e ele vai estar nos Vips como meu marido, meu eterno
companheiro.

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