A morte da Centopeia


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Estava eu me arrumando para sair com ela mais uma vez, porém esse dia não seria como todos os outros. Passei semanas ensaiando esse momento, pois não seria fácil, nem para ela e acho que para mim. Mas entre todas as opções que tive essa foi a mais coerente.
Me encontrei com ela, e como sempre, estava linda. Tinha se arrumado para mim como uma princesa, porém levemente despojada pois era só um passeio. Tentei parecer natural, mas eu não sabia que ela era tão observadora, pois dentro da cabeça dela se perguntava, “Ele não está nem segurando minha mão. O que está acontecendo? ”. Mas ela era muito discreta para perguntar logo de cara.
Então decidimos apenas comer um açaí e ela indecisa preferiu um banana Split. Comemos e conversamos sobre tantas coisas, e quando víamos uma criança bonitinha passando aqueles sorrisos leves eram inevitáveis. O vento não colaborava com aquele seu cabelo solto, pois não o deixava em paz. Eu queria tocar nela e segurar seus cabelos como já fiz em outras oportunidades (Riso). Porém não quis parecer que aquilo também me incomodava tanto quanto a ela, que mesmo tirando graça daquilo, no fundo se irritava um pouco por seu cabelo estar tirando o gosto do chantilly acabado de colocar na boca.
O sol havia acabado e sombra gelada tomou conta do lugar onde estávamos, então na intenção de ficarmos mais perto um do outro, ela propôs que fossemos sentar em um banquinho de madeira que ainda havia resquício de calor. Nos sentamos e ela brincando com sua própria sombra tentava não dar importância a meu silêncio. Inevitável pois depois de tantas desculpas bestas para justificar meus suspiros profundos, já estava calculado na cabeça dela, “Se ele suspirar mais uma vez ele não sai daqui sem me dizer o que tanto o perturba”.
Dito e feito, melhor dizendo, pensado e feito. Eu suspirei e ela já foi logo dizendo:
“_ Não vai dizer o que tanto esta te atormento, você só suspira assim quando tem algo a dizer, que não quer dizer, mas que te perturba. ”.
Não tive como adiar, então eu comecei com meu discurso “pensado”.
“Não estou feliz, e sei que você também não está, nos damos muito bem, temos uma química boa, mas parece que de uns tempos para cá não estou feliz. ”
Impressionante era aquele jeito dela, tão perfeito e tão direto de entender as coisas. Porque ela me fez a simples e cruel pergunta que nenhuma mulher faria tão diretamente.
“_ Quer voltar a sua vida de solteiro? ”.
Eu sorri com um certo choque, porque mediante a tudo que falei ela absorveu e deletou toda sensibilidade e dramaticidade que uma mulher faria em seu lugar. Em meu discurso pensado eu achei que ela iria me fazer milhões perguntas do tipo, “tem outra? ”. Porém nada disso surgiu de seus lábios. Diante daquele pôr do sol, do calorzinho e a brisa do fim da tarde, com o som de crianças brincando no parque, e aqueles lábios trêmulos se segurando para não chorar, mas pensando apenas na minha felicidade, eu a beijei.
Foi um beijo único, daqueles que até a lagrima quis sentir o gosto, nossos lábios demoraram a se soltar quando o beijo acabou. Ela abaixou a cabeça e soltou um leve palavrão como se aquele palavrão disse, “Porque te dei mais uma chance? Porque fui te amar de novo? Porque você resolveu voltar? ”.
Mas ela apenas se levantou e foi embora. Não quis que eu a levasse, e nem quis olhar para trás. Maduro? Talvez, mas se tratando da minha gata era apenas um jeito de sair logo para não me dizer coisas que ela gostaria de dizer.
Eu fiquei sentado ali por uns minutos, tentando pensar ali terminaria uma coisa que eu lutei para conseguir de novo.
“Não posso olhar para trás, não devo olhar para trás. Como eu volto para casa? Espera, respira ”. Me sentei naquela calçada mais alta e chorei. Mas respirando para não voltar, e o que se passava dentro de mim? Nada além de querer saber se ele ainda estava naquele banquinho, ou por quanto tempo ainda ficaria ali.
“ E aquele beijo? Para que isso? Em anos nunca senti tanta vontade no seu beijo como aqui. Para que? Para me dizer um adeus bonitinho? Para fazer um término amigável? Não sei se funcionaria”.
Foi então que passou pelo meu pé uma centopeia. E fiquei naquelas. “Me mexo e corro o risco de ela me machucar me queimando, ou fico quietinha e apenas a deixo passar e se ferir que seja pouquinho? ”
Então uma senhora sentou do meu lado e disse, “Não se mexa”. Se curvando para pega-la, e a jogou no mato. Eu a agradeci porque eu estava sem nenhuma reação. Então ela disse:
“_ Menina, não podia ter deixado ela nem ter passado pelo seu pé, se a matasse ia ser a má do universo, mas se deixasse passar quietinha, iria se machucar do mesmo jeito. ”
Mas minha curiosidade não me deixou ficar sem perguntar:
“_E a senhora, pegou nela e nem se feriu, porquê? Ela sorriu e disse:
“_ Já estou tão machucada que calejei. Não há o que passe mais por mim que me machuque com tanta profundidade”. Daí se levantou se saiu. Mas assim que virou as costas olhou para trás e disse:
 “_ Volte no tempo e recomece, não permita que te façam o que fizeram comigo, não te permita sentir essa dor de agora, mas se aprender a viver viva sem demora. ”
Algo estranho começou a acontecer. Minhas mãos começaram a se desfazer e de repente meu corpo inteiro tinha voltado para o ano anterior. Ano em que tinha retomei o contato com Abraão, mas o engraçado é que eu estava com a roupa em que nós reencontramos e nós beijamos. Foi então que cai no real e percebi que aquela senhora tinha me dado a oportunidade de recomeçar e decidir, beija-lo e deixar com que ele entre na minha vida mais uma vez, ou virar o rosto friamente e dizer, “Isso não vai acontecer de novo”.
Para não sentir aquela dor que eu estava sentindo e não acabar como aquela senhora, eu decidi não beija-lo e ser apenas profissional como o dia pedia. Então quando eu virei o rosto eu estava...
Onde eu estava?
Não sei onde estava, e nem porque estava ali, mas eu estava tão em paz.
“Porque a deixei ir? Será que ela vai conseguir chegar em casa? Será que não estar feliz é só um momento. ” Então me levantei e fui atrás dela. A vi sentada numa calçada, sentei ao seu lado e ela sorriu para mim tão lindamente, em paz e pareceu não me conhecer. Ela se levantou e pegou o ônibus que parou na nossa frente. Me senti tão perdido.
Até que senti uma ardência na perna e vi que tinha uma centopeia grudada entre minha e bermuda e na minha perna, dei um tapa nela e ela queimou minha mão, com raiva a pisei e a matei. Então uma senhora meio esquisitinha se sentou do meu lado meio brava e me disse uma única frase:
“_ Essa dorzinha ai, não é nada do que você pode causar, tanto a você quanta a centopeia, que pode morrer aos poucos. Não basta só dar um tapa por causa dessas dorzinhas mau curadas que te fizeram, precisa matar alguém não é mesmo? ”
Olhei estranhamente para ela e apenas me sai um:
“_Que?”
Ela tocou no meu ombro e disse:
“_ Recomece ou encerre, mas assuma a dor de não voltar. ”
De repente eu estava ali me arrumando para sair com ela mais uma vez, porém esse dia não seria como todos os outros. Passei semanas ensaiando esse momento, pois não seria fácil, nem para ela e acho que para mim. Mas entre todas as opções eu...


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